Eles pensam, nós refletimos e praticamos

Eles pensam, nós refletimos e praticamos

13/102016

Dentro da perspectiva que a rubrica nos apresenta quero trazer até vocês um texto em harmonia com o contexto educacional que vivenciamos, principalmente depois da aprovação da PEC 241.

Não seja pela importância que lhe atribuo do ponto de vista da reflexão sobre a situação atual, mas, e também, pela forma como o autor aborda uma problemática que há algum tempo venho tentando debater, sobre a qualidade da educação que oferecemos aos nossos jovens estudantes e, por essa via, sobre a qualidade da formação que damos aos futuros docentes, este texto dá dá conta de um assunto que deveria interessar a todos os estudantes de licenciatura, independente de qual ela seja.

Mas não vamos demorar demasiado em prolegômenos, pois espero que cada leitor possa fazer sua avaliação e, caso o deseje, possamos debater o conteúdo. Eis o texto:

 

O novo ensino médio já nasce velho

 Isaac Roitman

​A Medida Provisória 746 que institui as modificações no Ensino Médio foi recentemente enviada ao Congresso Nacional alterando Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira de 1966. Talvez o maior mérito dessa iniciativa foi colocar a educação na pauta midiática.  Várias questões da MP devem ser debatidas. O ensino da arte e a educação física será facultativa no ensino médio e continuará a ser obrigatória na educação infantil e fundamental. O currículo obrigatório será composto por itinerários formativos específicos nas seguintes áreas: 1. Linguagens; 2. Matemática; 3. Ciências da natureza; 4. Ciências humanas e 5. Formação técnica e profissional. Parte do Currículo poderá ser construído pelo estudante.  Será implementado o tempo integral com a carga horária anual de 1400 horas. Fica também instituída o fomento, com repasse de recursos do Ministério da Educação para os Estados e para o Distrito Federal. Será facultado a participação no ensino de profissionais com notório saber reconhecido pelos respectivos sistemas de ensino superior para ministrar conteúdos de áreas afins à sua formação. A sociedade não pode se omitir na discussão desses assuntos.

​A primeira indagação é entender quais as razões do ensino médio ser o foco da reforma educacional. Provavelmente pelos altos índices de reprovação e evasão e pelos resultados negativos nas avaliações feitas através do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). A educação brasileira não dará um grande salto com pequenas transformações embora propostas com boas intenções. Todo o sistema educacional precisa ser novamente construído. Em primeiro lugar precisamos entender que uma coisa é falar em tempo integral, outra em educação integral. Impor um tempo maior de permanência na escola sem novas motivações e atrativos será aumentar a tortura dos estudantes brasileiros. A educação integral implica em dar uma formação virtuosa para o relacionamento entre os seres humanos, mais solidária, ética e justa assim como um relacionamento consciente do ser humano com a natureza. É preparar o futuro adulto para exercer um protagonismo na sociedade e ter um trabalho que lhe proporcione uma vida digna. A velha pedagogia de aula expositiva deve ser sepultada. Como pregava Paulo Freire o protagonismo motivado deve ser um elemento fundamental para a construção de um novo sistema de aprendizagem. A utilização inteligente dos recursos dos progressos das tecnologias de informação e comunicação devem ser priorizadas, assim como a educação à distância. A formação de novos professores deve ser revista. O “novo Professor” não será um mero depositário de conhecimento. Ele terá a capacidade de avaliar os potenciais e os problemas de cada estudante. Ele deve ser competente em identificar e mediar conflitos e ser um estimulador para o exercício do pensar e de estimular a crítica argumentada. Ele deve ser valorizado e estar no faixa salarial superior da carreira de servidor público. Devemos caminhar no sentido da gradual abolição das disciplinas. O enfoque deverá ser interdisciplinar e a aprendizagem ser feita através estudos temáticos e de resolução de problemas. A estética, as artes e a educação física deverão estar presentes no cotidiano escolar. O diálogo com a sociedade, que aproximara a escola do mundo real, deverá ser permanente. A infraestrutura e a arquitetura da escola deverá ser orientada para que ela seja um “espaço encantado” com a missão de formar seres humanos que possam construir um mundo realmente civilizado, sem injustiça social.

​É importante a análise e o acompanhamento do que ocorre em países que tem alcançado um patamar virtuoso na educação. Um deles é a Finlândia onde a grade horária é mais flexível para que o estudante entre em contato com conceitos de economia, história, geografia e línguas estrangeiras de modo transversal com a ajuda de temas do cotidiano. Essa nova lógica do aprendizado invade também o ensino superior desse país. Por exemplo, um curso de Administração tem disciplinas tradicionais no primeiro ano, nos dois anos e meio seguintes, os alunos deixam de ter professores, passam a ter tutores, formam empresas reais e aprendem enquanto desenvolvem o negócio. Nesse novo ambiente de aprendizagem colaborativas diversos professores trabalham simultaneamente com um mesmo grupo de alunos. A metodologia baseada na resolução de problemas está ganhando protagonismo no ensino finlandês, em detrimento da aula tradicional. Mesmo no ensino fundamental finlandês o ensino está cada vez mais focado no desenvolvimento de habilidades e não apenas na assimilação do conteúdo tradicional. Na educação infantil da Finlândia as escolas estão focadas totalmente nos jogos e nas brincadeiras e na aprendizagem alegre e divertida através do contato com a natureza, músicas, dança, esportes e outras atividades lúdicas.

​Um outro exemplo que deve servir de inspiração para uma revolução educacional brasileira é a Escola da Ponte (Portugal) implantada pelo educador José Pacheco que atualmente ajuda a implantar projetos semelhantes no Brasil. Nessa escola, onde não há aulas expositivas, séries e exames, cada estudante é reconhecido como único, integrante de uma cultura, origem e estrutura familiar singular. Ela visa a formação de pessoas autônomas, responsáveis, solidárias, cultas e democraticamente comprometidas na construção de um destino coletivo e de um projeto de sociedade que potencialize a afirmação das mais nobres e elevadas qualidades de cada ser humano.

​É chegada a hora de romper com o tradicional iluminismo educacional que insiste na transmissão de conteúdos e na formação social individualista e em um coletivo que obedece aos comportamentos construídos por uma mídia perversa a serviço do mercado. É pertinente lembrar o pensamento de John Dewey, com quem Anísio Teixeira conviveu: “A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida”.

 

Boa leitura melhor reflexão!

 

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Temos aí, na página mestra desta rubrica, um exemplo ao qual juntarei muitos outros, textos que traduzem de forma teórica as práticas que já foram desenvolvidas com sucesso.

Nesta sub-página tentarei trazer discussões que contribuam, de modo efetivo, para a compreensão do ponto de vista que defendo: uma educação significativa para quem dela precisa, isto é: todo mundo.

Não sou, no Brasil, o único a defender este tipo diferenciado de educação, mas talvez o seja e já esteja fazendo seguidores, na cidade que habito e nos seus municípios vizinhos. Estamos ainda longe de alcançar qualquer tipo de "sucesso" (que não almejamos enquanto tal, mas enquanto resultado afirmativo), mas os bons ventos começam a enfunar nossa velas. Vejamos uma notícia auspiciosa quando se pensa que outra educação é possível:

http://www.portaldoeducador.org/educadores/detalhe/denis-plapler/pela-primeira-vez-na-historia-mec-reconhece-outras-formas-de-organizar-a-escola

 

Mais adiante, depois que vocês tenham tido tempo de analisar a notícia de modo crítico, voltarei com a minha análise.

Boa leitura!

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A Minha análise

Não sei se o tempo já lhes foi suficiente para fazerem a vossa análise; a minha, considerando o que este texto reflete e é proposto no título da postagem - ou seja nós refletimos e praticamos - está pronta para ser aqui divulgada. Nesse sentido, permitam que abuse um pouco da vossa paciência!

Talvez ainda não tenha sido dito, neste espaço, que há algum tempo venho comandando uma equipe que reputo de "pesquisadores das coisas da educação", envolvendo aí os mais diversos aspectos (dentro dos quais o carro chefe é o projeto que discute a Formação Docente para atuar numa escola diferenciada). Essa equipe tem se debruçado, para fazer uma análise mais aprofundada da prática da Escola da Ponte criada e dirigida, por três décadas, pelo educador português José Pacheco. Acredito que a simples referência à Escola da Ponte já permite ao meu leitor que não seja leigo em História da Educação perceber de imediato o contexto em que navegamos nessa equipe, qual o norte que buscamos e no tanto que necessitamos de coragem para enfrentar essa "batalha".

A primeira frase do texto que lhes propus analisarem já carrega, em si, toda a nossa vontade de fazer o diferente, como se nós detivéssemos a sua autoria. Isso quer dizer, por outras palavras, que estamos no caminho certo? "Talvez" deve ser a resposta mais cautelosa. Uma confiança desmerecida ou inflada pode colocar o projeto a perder, considerando que ele ainda é, para todos nós "extremamente inovador".

Adotei o - para mim - novo conceito de sincronicidade, pois ele traz para a nossa luta um elemento fortalecido nas nossas relações (as relações que estabelecemos na equipe à qual chamo de Grupo de Estudo, com os nossos autores - José Pacheco e António Nóvoa - e com a parte mais importante dessa relação que é escola nossa parceira e nosso campo de aplicação). Tal como é dito no texto, "(...) quando duas ou mais experiências acontecem ao mesmo tempo e apresentam significado para duas ou mais pessoas que vivenciaram esta(s) experiência(s), isto não é uma simples coincidência, mas aquilo que Jung nomeou como Sincronicidade, a tomada de consciência de relações que, em grande parte do tempo, permanecem imersas no Inconsciente Coletivo". Está aí a justificativa da adoção do conceito: ele traduz exatamente o sentimento que nos une.

Na minha prática, que depois, no momento seguinte, passo à teorização, sempre tenho dito aos aprendentes que a cada semestre se renovam,  que eles desconhecem (e seria bom conhecerem) o PODER que têm. Com esse exemplo claro e redundante dos alunos de São Paulo acredito que a minha ideia tome novo sentido, um sentido mais palpável, mais visível, pelo menos; "Os adolescentes finalmente apropriaram-se de suas escolas e neste processo descobriram o poder que possuem ao agir de forma coletiva e autogestionada". Venho defendendo que a nossa juventude só precisa de duas coisas: liberdade de fazer e quem os oriente (não manipule!) no rumo da descoberta de seus maiores interesses. Passar da água ao vinho não é fácil, mas não é impossível, basta que as transformações comecem a acontecer de forma paulatina, mas não tão morosamente que possa perder-se no emaranhado de contra proposições que vão surgir, principalmente por parte da classe dominante que não quer que a "sanzala aprenda a ler".

Na minha prática, proponho à escola parceira, um ato de "liberdade vigiada" como método de aprendizagem e mostro o que isso significa: a orientação velada e a uma distância suficiente para fazer os aprendentes acreditarem na sua total autonomia. Tem sido assim que "As aulas verticais, antes dentro de salas e carteiras apertadas, passaram a acontecer de forma horizontal em todos os espaços da escola (...)".

Esta prática, que depois de avaliada é transformada em teoria, vem compondo o conceito tão dificilmente assimilado de práxis, que não é algo que nós tenhamos criado. Não! Nós apenas adotamos as bases do fazer/pensar de José Pacheco, nosso maior inspirador, que desde os anos 70 do já distante século XX já adotava, e adequamos a uma realidade que pode ser apresentada como sendo uma escola da zona rural, num distrito de uma cidade interiorana, que enfrenta todos os problemas da educação pública e, ainda, um olhar meio atravessado das "autoridades educacionais" da sede, que não estão ainda afeitas às novas tendências e seguem cegamente os ditames de quem pode e manda.

O texto aponta para a primeira vez que uma educação diferenciada acontece em São Paulo. Acredito que o autor não conhece o Projeto Âncora, ali na cidade de Cotia (para falar apenas nesse. Ali, em Cotia, José Pacheco desenvolve o projeto piloto que tem difundido pelo Brasil, numa pequena escala, se considerarmos o tamanho do aparato educacional, mas que aos poucos está produzindo bons resultados.

Os resultados que já estão aparecendo estão intimamente relacionados com a estrutura flexível que vem oportunizando aos aprendentes a possibilidade de se tornarem construtores do próprio conhecimento, daquele conhecimento que realmente lhes interessa, eliminando dessa forma muito daquilo a que chamo de "saber inútil" (sei que tem pessoas que vão me crucificar pela terminologia, alegando que não há saber inútil e sim mal aplicado!) que a atual escola obriga o aluno a engolir e depois regorgitar no momento da prova que, posteriormente irá para o lixo.

A educação precisa estar, tal como sugerido, se não na frente, pelo menos emparelhada com a evolução da ciência e da própria sociedade, hoje dita sociedade do conhecimento. Curiosamente, tentando esse posicionamento, muitas teorias educacionais têm sido criadas, mas não passaram disso - teorias - não alcançaram o nível da prática, pois são impraticáveis diante da sociedade em constante e acelerado processo de de transformação. As práticas, por sua vez, favorecem a reflexão sobre o erro, o acerto, a aplicabilidade, a atualidade do saber, e o saber fazer compreendendo o como, o para quê e para quem se faz.

Vale então ressaltar que a ação do MEC (reconhecer outras formas de organização da escola) não passa de um primeiro e tímido, mas contudo, um primeiro passo para que se possam debater, também, outras formas de aprendizagem. As sementes já haviam sido plantadas, os frutos começam a ser colhidos, esperemos que se aumente o "chão plantado" para que a colheita seja cada dia maior e mais qualificada.

 

08/02/2016

Eu sempre alerto os estudantes, no primeiro semestre da universidade, para o fato de eles chegarem ali sem saberem LER nem ESCREVER. Não é que eu queira humilhar ou menosprezar algum deles, nada disso. O que faço serve, pelo menos no meu entender, de alerta para o que os espera ao longo da duração do curso. Espero sempre uma reação positiva (no âmbito dos estudos), pois acredito que "homem prevenido vale por dois". Embora a academia, no atual contexto, aparente ser o "locus" do conhecimento por excelência, sabemos também que não há, ali, muito tempo a perder na formação leitora e escrita dos aprendentes que nos chegam. Para suplantar essa situação é preciso da parte de cada um deles bastante dedicação e força de vontade para aprender.
Sei, perfeitamente, que até chegarem ali, e mesmo depois de ali chegarem, ninguém tem a ideia de lhes ensinar como estudar, de lhes mostrar como se aprende. Isso os induz à velha prática da decoreba e, por força dessa prática, a uma péssima formação.
Quase sempre, quando os coloco ante essa realidade, sou tachado de um monte de adjetivos que julgo melhor não divulgar aqui. Mas a prova aparece tempos depois quando eles são colocados diante do problema de terem de escrever um texto.
Ao final do curso, bastantes acabam reconhecendo o meu alerta, a minha denúncia, a minha posição crítica; outros, infelizmente, são a razão de ser de pesquisas como esta que lhes apresento e cujos resultados não são nada abonadores para os nossos estudantes.
Vejam o que nos dizem esses entrevistados e este pesquisador. Depois façam exame de consciência para, se necessário, mudarem vossa postura diante da oportunidade de se formarem em cursos de nível superior!
10/02/2016
O carnaval está acabando. Momo vai ficar na penumbra dos tempos até ao próximo ano. Já tem gente com saudades e outras loucas para trabalhar. Com uma dessas partes se vive na alienação, com a outra se é alienado, mas produtivo de tal modo a poder sustentar as folias mominas.
Mas o meu papo hoje é mais profundo e preocupante.
Venho travando uma luta de titãs contra um modelo educacional que julgo arcaico, "démodé" (como dizem os franceses), inútil, sem objetivos mais claros que aqueles de preparar (pessimamente para servir ao capital), pois nem para isso presta, antiquado, seletivo/excludente... prefiro parar por aqui com a adjetivação. Todos que me dão a honra de me lerem já estão ficando "carecas" de saber disso. Mas eu, sinceramente, não canso de me surpreender.
Sem querer alongar demais as introduções (sou conhecido por ser objetivo, direto e grosso (este último atributo decorre da falta de hábito das pessoas serem aquilo tudo e tão pouco e preferirem o "enroladinho para ver se fica politicamente correto), vou anunciar de imediato que mais uma vez o Brasil cai no conto do "importar o que é bom lá fora para dar certo aqui dentro" sem fazer as devidas adaptações.
Recebi hoje, depois de uma folia sem fim com meu parceiro "Sossego" e pulando no bloco da "Calmaria", onde a pista mais comum foi o "Vale de Lençóis", uma notícia que, sinceramente, há muito já aguardava:
Sim, não se surpreenda! Eu já aguardava esta notícia, principalmente depois que tive um encontro com meu amigo José Pacheco e ele me confessava que tinha a ideia de espalhar pelo Brasil um modelo de escola que se aproximasse da Escola da Ponte. Por esse motivo eu me preparei, tentei colocar em prática os ensinamentos que consegui coletar junto ao próprio, mas isso tem sido motivo de muita fofoca, para não usar o termo "discórdia". Resistente, montei meu Grupo de Estudo (GE) no qual sou bravamente seguido por dois ou três bravos estudantes, antigos  discípulos, que acreditam na minha ideia, aquela "pescada" do Zé Pacheco (como lhe chamo).
Mas então, onde está o xix da questão?
Aparentemente (segundo a ideologia do MEC) se deu certo lá, deve dar certo aqui... vamos aplicar! Ledo engano. As pessoas não compreendem que nada é igual em dois locais distintos, por mais que a mesma coisa seja apenas deslocada de lugar. Em educação a coisa piora "zilhões" de vezes. As pessoas não compreendem que a Escola Ponte, muito mais que uma maneira de fazer educação é uma FILOSOFIA de educação. Por isso cometem-se tantos erros como esses que acabam sendo veiculados na notícia. Sei que você vai ler na íntegra, mas permita que eu aguce um pouco mais a sua curiosidade destacando apenas um pequeno parágrafo dessa triste notícia:
"Ainda que trata-se (sic) de um modelo reconhecido internacionalmente, algumas críticas levantaram questões específicas sobre sua aplicação no contexto brasileiro". 
Ao ler a citação começo a perceber que a escola vai ter uma frequência especializada. Pelo menos deveria ter!
Mas o mais importante não são os erros cometidos, mas os acertos que se aguardam. Na notícia está dito que a Escola da Ponte é um "projeto experimental", e isso já demonstra uma falta de conhecimento de causa, pois uma escola que está implantada desde 1970 jamais poderá ser taxada de experimental, muito menos pelos belíssimos resultados que apresenta. Nota-se, portanto, que quem escreve tal notícia é mais incrédulo que os ateus.
Depois, seria interessante que essa notícia viesse acompanhada de um relato das "operações" que desejam efetuar nas duas escolas - precisam utilizar técnicas de micro cirurgia - e, muito especialmente, apontar para quem serão os responsáveis por conduzir a reflexão (lembro que a Escola da Ponte é muito mais uma filosofia que um modelo de educação que não pode ser transplantado como quem transplanta um órgão do corpo humano).
Resta uma parte da notícia que deve ser enaltecida: a constatação que a educação está viva, mexendo e buscando acertar. Mas eu continuarei a ser tratado, lá no meu Departamento, na Universidade, como a famosa Mãe Dinah. Mas apenas isso, mudanças significativas na formação que estamos oferecendo ao nossos estudante, nem pensar, pois dá muito trabalho fazer transformações e nossos pares estão "muito bem obrigado" nas suas matérias e não podem perder seu posto de titularidade das mesmas (tal como nos tempos idos e revolvidos da cátedra).
E assim continuará a marchar a nossa educação. Marchar, pois é dirigida como quem dirige a famosa "ordem unida" (meus bons tempos de militar) todos na mesma direção, sem possibilidade de ser ou fazer o diferente; educação com letra bem minúscula, pois o seu futuro, neste andamento, é tenebroso, obscuro e frio... mais parece um daqueles filmes de terror que nunca sabemos, antes, como chegará ao fim... mas chega, com susto!
Boa leitura, melhor reflexão e não se esqueça, se quiser discutir um pouco a respeito, se informar de nossa prática, de nosso sonho (utopia, para os mais academicistas) use tudo que desejar para nos fazer saber de sua opinião: tem aí o Livro de visitas onde poderá (sempre) deixar a opinião, uma pergunta, uma crítica; tem o blog; tem o grupo do Face e até o meu "ZAPZAP". permita que conheçamos seu ponto de vista... ele é importante para todos nós e até para você.
28/02/2016
OS DEZ MANDAMENTOS DO PROFESSOR.
Nesta rubrica cabe muito bem um momento de reflexão, principalmente por se tratar da questão do "fazer do professor" na sua prática docente. Tenho apontado caminhos para que atinjamos um patamar formativo/profissional que nos possibilite um "fazer" mais adequado aos tempos que correm e às mentalidades que se nos apresentam em sala de aula para que, supostamente, as transformemos em mentes pensante e capazes de agir de modo transformador na sociedade em que estão incluídas. Não são tarefas fáceis, mudar o "modelo" de ensino e, muito menos, mudar a forma de pensar através da imposição.
O texto que lhes trago hoje não é da minha autoria e está devidamente identificado ao seu final. É um texto que deveria nos fazer pensar seriamente na forma como vimos atuando em educação. Será utópico? Talvez! Mas sem utopia estagnamos no tempo e no espaço. Eu não desejo isso para mim e muito menos para vocês, pois parar é sinônimo de morte.
Só posso desejar uma boa leitura e uma melhor reflexão para que alguma transformação ocorra em você.

OS DEZ MANDAMENTOS DO PROFESSOR

 

-PRIMEIRO MANDAMENTO: CORTAR O PROGRAMA!

Quase todas as disciplinas foram perdendo aulas ao longo das décadas anteriores. Não obstante, os programas nem sempre acompanharam estes cortes. Pergunte-se: isto é realmente importante? Este conteúdo é essencial? Não seria melhor aprofundar mais tais tópicos e menos outros? Se a justificativa é a pressão do vestibular, ela não pode ocupar 11 anos de Ensino Médio e Fundamental. Se a justificativa é uma regra da escola ou um coordenador obsessivo, lembre-se: o Diário de Classe sempre foi o documento por excelência do estelionato. A coragem da grande tesoura é essencial. Dar tudo equivale a dar nada. Ensinar a pensar não implica esgotar o conhecimento humano.

-SEGUNDO MANDAMENTO: SEMPRE PARTIR DO ALUNO!

Chega de lamentar o aluno que não temos! Chega de lamentar que eles não leem, a partir de uma nebulosa memória do aluno perfeito que teríamos sido (nebulosa e duvidosa). Este é o meu aluno real. Se, para ele, Paulo Coelho é superior a Machado de Assis e baile Funk é superior a Mozart, eu preciso saber desta realidade para transformá-la. Se ele é analfabeto devo começar a alfabetizá-lo. Se ele está no Ensino Médio e ainda não domina soma de frações de denominadores diferentes devo estar atento: esta é minha realidade. A partir do zero eu posso sonhar com o cinco ou seis. A partir do imaginário da perfeição é difícil produzir algo. A Utopia, desde Platão e Thomas Morus, tem a finalidade de transformar o real, nunca de impossibilitá-lo.

-TERCEIRO MANDAMENTO: PERDER O FETICHE DO TEXTO!

Em todas as áreas, em especial nas humanas, os alunos são instigados quase que exclusivamente ao texto. Num mundo imerso na imagem e dominado por sons e cores, tornamos o texto central na sala de aula. Devemos estar atentos ao uso de imagens, música, sensorialidades variadas. O texto é muito importante, nunca deve ser abandonado. Porém, se o objetivo é fazer pensar, o texto é apenas um instrumento deste objetivo maior. Há pessoas que pensam e nunca leram Camões e há quem saiba Os Lusíadas de cor e não pense… Lembre-se de que há outros instrumentos. A sedução das imagens deve ser uma alavanca a nosso favor, nunca contra. Usar filmes, propagandas, caricaturas, desenhos, mapas: tudo pode servir ao único grande objetivo da escola: ajudar a ler o mundo, não apenas a ler letras.

-QUARTO MANDAMENTO: POSSIBILITAR O CAOS CRIATIVO.

Fomos educados a um ideal de ordem com carteiras emparelhadas e, mesmo no fundo do nosso inconsciente, este ideal persiste. Qual professor já não teve o pesadelo de perder o controle total de uma sala, especialmente na noite mal dormida que antecede o primeiro dia de aula? Devemos estar preparados para o caos criador e para o lúdico. Alunos andando pela sala, trocando fragmentos de textos ou imagens dados pelo professor, discussões, encenações, o professor recitando uma poesia ou mandando realizar um desenho: tudo pode ser canal deste lúdico que detona o caos criativo. Surpreenda seus alunos com uma encenação, com um silêncio, com um grito, com uma máscara. Uma sala pode estar em ordem e ninguém aprendendo e pode estar com muitas vozes e criando ambiente de aprendizado. Lembre-se o silêncio absoluto é mais importante para nós do que para os alunos. É difícil vencer a resistência dos colegas e da própria escola a isto. Lógico que o silêncio também deve ser um espaço de reflexão, mas é possível pensar que há valor num solo gentil de flauta, numa pausa ou num toque retumbante de 200 instrumentos.

-QUINTO MANDAMENTO: INTERDISCIPLINAR!

Assim mesmo, entendido o princípio como um verbo, como uma ação deliberada. É fundamental fazer trabalhos com todas as áreas. Elaborar temas transversais como o MEC pede e, ao mesmo tempo, libertar o aluno da ideia didática das gavetas de conhecimento. Não apenas áreas afins (como História e Geografia), mas também Literatura e Educação Física, Matemática e Artes, Química e Filosofia. É preciso restaurar o sentido original de conhecimento, que nasceu único e foi sendo fragmentado até perder a noção de todo. O profissional do futuro é muito mais holístico do que nós temos sido até hoje.

-SEXTO MANDAMENTO: PROBLEMATIZAR O CONHECIMENTO.

Oferecer ao aluno o cerne da ciência e da arte: o problema. Não o problema artificial clássico na área de exatas, mas os problemas que geraram a inquietude que produziu este mesmo conhecimento A chama que vivou os cientistas e artistas é transmitida como um monumento inerte e petrificado. Mostrem as incoerências, as dúvidas, as questões estruturais de cada matéria. Mostrem textos opostos, visões distintas, críticas de um autor ao outro. Nunca fazer um trabalho como: “O Feudalismo” ou “O Relevo do Amapá”; mas problemas para serem resolvidos. Todo animal (e, por extensão, o aluno) é curioso. Porém, é difícil ser curioso com o que está pronto. Sejamos francos: se é tedioso ler um trabalho destes, qual terá sido o tédio em fazê-lo?

-SÉTIMO MANDAMENTO: VARIAR AVALIAÇÕES.

Provas escritas são válidas, como a vitamina A é válida para o corpo humano. Porém, avaliações variadas ampliam a chance de explorar outros tipos de inteligência na sala. As outras avaliações não devem ser vistas como um trabalhinho para dar nota e ajudar na prova, mas como um processo orgânico de diminuir um pouco a eterna subjetividade da avaliação.

-OITAVO MANDAMENTO: USAR O MUNDO NA SALA DE AULA!

O mundo está permeado pela televisão, pela Internet, pelos jornais, pelas revistas, pelas músicas de sucesso. A escola e a sala de aula precisam dialogar com este mundo. Os alunos em geral não gostam do espaço da sala porque ele tem muito de artificial, de deslocado, de fora do seu interesse. Usar o mundo da comunicação contemporânea não significa repetir o mundo da comunicação contemporânea; mas estabelecer um gancho com a percepção do meu aluno.

-NONO MANDAMENTO: ANALISAR-SE PESSOALMENTE!

A primeira pessoa que deve responder aos questionamentos da educação é o professor. Somos nós que devemos saber qual o motivo de dar tal coisa, qual a relevância, qual a utilidade de tal leitura. O professor é o primeiro que deve saber como tal ciência transformou a sua vida. Isto implica fazer toda espécie de questão, mesmo as incômodas. Se eu não fico lendo tal autor por prazer e nem o levo aos meus passeios como posso exigir que um jovem ou uma criança o façam? Qual a coerência do meu trabalho? Minha irritação com a turma indisciplinada é uma espécie de raiva por saber que eles estão certos? Minha formação permanente me indica novos caminhos? Estou repetindo fórmulas que deram certo quando eu era aluno há 20 ou mais anos? É necessário um exercício analítico-crítico muito denso para que eu enfrente o mais duro olhar do planeta: o do meu aluno.

-DÉCIMO MANDAMENTO: SER PACIENTE!

Hoje eu acho que ser paciente é a maior virtude do professor. Não a clássica paciência de não esganar um adolescente numa última aula de sexta-feira, mas a paciência de saber que, como dizia Rubem Alves, plantamos carvalhos e não eucaliptos. Nossa tarefa é constante, difícil, com resultados pouco visíveis a médio prazo. Porém, se você está lendo este texto, lembre-se: houve uma professora ou um professor que o alfabetizou, que pegou na sua mão e ensinou, dezenas de vezes, a fazer a simples curva da letra O. Graças a estas paciências, somos o que somos. O modelo da paciência pedagógica é a recomendação materna para escovar os dentes: foi repetida quatro vezes ao dia, durante mais de uma década, com erros diários e recaídas diárias. As mães poderiam dizer: já que vocês não querem nada com o que é melhor para vocês, permaneçam do jeito que estão que eu não vou mais gritar sobre isto (típica frase de sala de aula…). Sem estas paciências, seríamos analfabetos e banguelas. Não devamos oferecer menos ao nosso aluno, especialmente ao aluno que não merece nem quer esta paciência este é o que necessita urgentemente dela. O doente precisa do médico, não o sadio. O aluno-problema precisa de nós, não o brilhante e limpo discípulo da primeira carteira.

Há alguns anos eu falava de alguns destes princípios e uma senhora redarguiu dizendo que ela fazia tudo isto e muito mais e, mesmo assim, os alunos estavam cada vez piores e com menos resultados. Olhei para esta professora e senti nela o reflexo de meus cansaços também. A única coisa que me ocorreu lembrar é uma alegoria, com a qual encerro este texto:

Na nossa cultura há um modelo de professor: Jesus. A maioria absoluta das pessoas no Brasil é cristã, mas a alegoria serve também para os que não são. Tomemos a história de Jesus independente da nossa orientação religiosa. Comparemos: Jesus teve 12 alunos escolhidos por ele! Eu tenho 30, 60, 100, escolhidos por um rigoroso processo de seleção: inscreveu, pagou, entrou. Jesus teve alunos em tempo integral por três anos: eu tenho por duas ou quatro aulas semanais, por um período mais curto. Os alunos de Jesus deixaram tudo para segui-lo, o meu não deixa quase nada e não quer acompanhar nem meu pensamento, quanto mais minhas propostas existenciais. Fiel aos novos ditames do MEC, Jesus deu um curso superior em três anos. Para quem acredita, Ele fazia milagres, coisa que nós certamente não fazemos naquele sentido. A aula, de Jesus, assim, era reforçada por work-shops. A autoestima e a confiança de Jesus era enorme: o cara simplesmente dizia que era o Filho de Deus, que ressuscitava mortos, andava sobre as águas, passava quarenta dias sem comer e não tinha medo de ninguém. Eu não tenho esta convicção. Melhor: as aulas eram ao ar livre, sem coordenação, sem direção, sem colegas e os pais dos alunos não apareciam para reclamar! Bem, após 3 anos de curso intenso com todos estes reforços, chegou a prova final. Na agonia do Horto os três melhores alunos dormiram, quando o Mestre estava chorando sangue. O tesoureiro da turma denunciou o professor à Delegacia de Educação por 30 moedas. O líder da classe, Pedro, negou que tivesse tido aula por três vezes diante da supervisora de ensino: nunca vi este cara antes… Outros nove fugiram sem dar notícia e não compareceram à prova final: o Calvário. O mais novo e bobinho, João, foi até lá, mas não fez nada para impedir que os guardas matassem o professor. Se considerarmos João, com boa vontade, o único aprovado, teremos uma média de êxito de 8.33%, baixa demais para os padrões das Delegacias de Ensino e alvo de demissão sumária por justa causa. O professor morreu e, para quem acredita, voltou para uma recuperação de férias. Reuniu os reprovados e disse: mais uma chance. Um dos alunos, Tomé, pediu para colocar o dedo no diploma do professor para ver se era de verdade. Primeira pergunta do líder da turma, Pedro: “Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?” Ou seja, o melhor aluno não aprendeu nada! Esta pergunta mostra o oposto da aula dada, pois ele achou que o curso tinha sido sobre política e, na verdade, tinha sido sobre Teologia… Objetivos não atingidos: 100%! Novos milagres, mais 40 dias de feedback, apostilas, recuperação, reforço de férias. Final de curso pirotécnico: subiu ao céu entre nuvens e anjos assistentes-pedagógicos disseram que o mestre tinha ido para a sala dos professores eterna e não mais voltaria. O curso estava encerrado, todas as lições tinham sido dadas para aquela nata de 11 homens. O que eles fizeram? Foram se esconder numa casa, todos apavorados. O mestre mandou um módulo auto instrucional de reforço, o Espírito Santo, um anabolizante. Só então, com uma força externa, eles começaram a entender, e finalmente tiveram aquela famosa reação bovina: HUMMMM…

Bem, eu disse à professora que me questionava: se Jesus teve tantos insucessos apesar de condições tão boas, a senhora quer ser mais do que Ele? Hoje eu diria para qualquer profissional: faça o máximo, mas apenas o máximo, e deixem o resto por conta do resto. A frase parece autista, mas é muito importante. Nós temos um limite: a vontade do aluno, da instituição e da sociedade como um todo. Não transformamos nada sozinhos, mas transformamos. O primeiro passo é a vontade. O segundo começa daqui a pouco, naquela sala difícil, com aquela turma sentada no fundo e naqueles angustiantes dez minutos que você vai levar para conseguir fazer a chamada… Vamos lá?

Leandro Karnal

http://www.revistapazes.com/dez-mandamentos-professor/

 

01/03/2016

Nestes tempos de dificuldades para fazer prevalecer um ponto de vista (apenas o ponto de vista) restam-nos as ações que falam mais alto que as palavras.

A comunidade acadêmica, prenhe de egos inflados, teima em não reconhecer algo que lhe é inerente: a diversidade de pensares e fazeres que a deveria caracterizar. Lamentável.

Ao atingir um quase fim do meu período de validade (portanto de garantia, afinal beiro a idade da compulsória), faço o que julgo mais acertado. Não preciso, neste momento da vida, mais do que este reconhecimento que deixo a seguir e que muito agradeço, pois sei que é honesto, sincero.

Tenho apenas uma palavra a dizer sobre esta situação: busquei uma formatura para tentar dar minha contribuição para a evolução da educação no meu estado, no Brasil. Que outro reconhecimento não tenha que o daqueles que têm tido a oportunidade de sentir o meu empenho. Dos demais, insensíveis, não quero mais que o respeito que a minha pessoa lhes possa inspirar, do resto... vivo bem no meu caminho, por mais que tenha que derrubar muitas barreira, contornar alguns obstáculos e quebrar alguma pedras. Isso tudo só fala do meu valor em persistência, resistência e força de vontade bastante objetiva. Quem não tiver tais atributos, pode me contratar que eu dou curso a distância.

Tá com inveja?

Vá trabalhar!

Que passe a ironia e a aparente arrogância. Não é nada disso! É muito mais um sentimento de revolta libertado.

 

GRATIDÃO 2015.doc

 

Te aguardamos com muito carinho

00:25

Manuel Fernandes, esta ação educativa, é a sua cara! Reunimos os educandos do 1º ao 5 º ano e realizamos várias atividades pedagógicas no mesmo espaço e no mesmo tempo. Todos se divertiram, todos participaram! Educandos de idades e níveis diferentes, aprendendo juntos.

Júlio Joel

 (mensagem recebida via messenger, vinda da direção da escola na qual desenvolvo as minhas práticas que brevemente tentarei sistematizar em publicação de livro).