Aporte Teórico

Aporte Teórico

10/01/2017

O tempo, grande vilão da Modernidade Líquida (em homenagem ao sociólogo polonês Zygmunt Bauman que faleceu ontem, dia 09 de janeiro, à mistura com aquele pouquinho de desorganização própria de cada um e uma quantidade razoável de trabalhos fizeram com que eu deixasse um pouco abandonada esta rubrica do meu site que, na verdade, deveria ser o carro chefe da ideia que o originou. Mas bem, nada nunca está perdido quando temos a coragem de levantar, sacudir a poeira e dar a volta pelo outro lado (não concordo que tenha que ser obrigatoriamente por cima).

 

Neste sentido, e retomando um pouco a origem deste cantinho que serve a tudo, inclusive desabafos nem sempre agradáveis (como dizem os franceses "c'est la vie mon chéri")quero a partir de agora dar partida à divulgação e tanto quanto possível à análise e discussão (por mais que superficial por falta de interlocutores) do pensar de António Manuel Seixas Sampaio da Nóvoa - ou, simplesmente, António Nóvoa, como ele é mais conhecido entre nós, um português doutor em Ciências da Educação e História Moderna e Contemporânea. No seu "métier", Nóvoa, estuda e dedica bom tempo à reflexão sobre a Formação Docente que tanto me tem dado trabalho e questionamentos para os quais não tenho sido ajudado a encontrar outras alternativas que aquelas impostas pelo feudo estabelecido em torno da temática por pessoas impenetráveis ao novo e, principalmente, intolerantes ao diferente.

 

Mas não estamos aqui para chorar águas que já passaram sob a ponte. Quero desde logo apresentar a primeira obra de Nóvoa - que recomendo vivamente a leitura: "Desafios do trabalho do professor no mundo contemporâneo". Algum motivo especial para esta primeira indicação? Sim! Trata-se de um "livreto" editado pelo SINPRO/SP contendo ao todo umas 25 páginas, das quais 15 são a transcrição de uma palestra que o autor fez para uma seleta plateia naquela cidade. Além disso, este texto serve muito bem para um primeiro contato com o autor, pois ele nos traz uma visão bastante ampla do conceito que Nóvoa faz do que seja educação, sua função precípua e qual a atuação do seu principal autor - o professor.

 

Neste primeiro momento quero trazer, então, o texto, mas fica a promessa de trazer para vocês o vídeo registrado nesse momento em que ele fazia a sua falação. É interessante ver, pois a maneira bastante didática como ele faz a apresentação e defesa da sua tese é, no meu modesto entender e sempre suspeito modo de ver em virtude da aproximação existente entre o nossos pensares, um aprendizado à parte.

 

Deixo-lhes, para vossa apreciação, o link de acesso ao texto:

http://www.sinprosp.org.br/arquivos/novoa/livreto_novoa.pdf

 

Uma boa leitura.

 

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20/12/15

SOBRE A ESCOLA DA PONTE

Este espaço será dedicado à apresentação de textos dos principais pensadores de quem tomamos emprestadas ideias para praticarmos a nossa forma de educação. Poderá aparecer quem diga que estamos imitando a Escola da Ponte, que bom, a ser dessa forma estaríamos imitando o que é bom e não qualquer modelo que ainda precise mostrar ao que veio. Mas não é disso que se trata, na realidade.

A nossa proposta está calcada no espaço refletido que se situa entre o modelo da Ponte e a análise objetiva das necessidades educacionais que nossos aprendentes manifestam quando são submetidos a algum tipo de avaliação externa, como é o caso do PISA (Programme for International Student Assessment) ou outros que estabeleçam comparativos qualitativos dos níveis de aprendizagem.

Defendemos a educação com a proposta de trabalho defendida por José Pacheco: Uma escola aberta, inclusiva e livre dos grilhões das "grades curriculares".

Para iniciar a nossa reflexão deixo um texto do José Pacheco que nos traz um pouco a descrição dessa escola que defendemos.

https://historiadaeducacaouergs.files.wordpress.com/2013/11/art-fazer-a-ponte-de-pacheco.pdf

Boa leitura!

 

05/02/2016

Nós - que nos interessamos pelos desígnios da educação - carecemos de mais e mais informação sobre esse processo que tem feito rolar oceanos de tinta. Logicamente, não há como prescrever um modelo que faça a unanimidade (que dizem ser sempre burra!), mas podemos, sempre, tentar pensar juntos, por mais que cheguemos separados ao final do pensamento.

Pensando nessa necessidade é que lhe trago hoje mais um pequeno aporte que poderá contribuir para uma compreensão mais alargada das visões/políticas/teorias/práticas do que se anda fazendo por este país afora. A indicação do site permite uma navegação simples e objetiva por uma grande série de assuntos do nosso interesse. Particularmente, adorei todos os pedacinhos que já consegui vislumbrar. Não recomendo nenhum em especial, mas todos em geral. Faça sua visita e adote como parâmetro para alguma reflexão aqueles(s) que julgar merecedor(es).

http://www.diaadia.pr.gov.br/index.php

Boas pesquisas e melhores reflexões!

 

05/04/2016

Uma entrevista com José Pacheco.

 

Não posso esconder a admiração que nutro por meu patrício, conterrâneo e contemporâneo. Usando de um expediente pouco academicista direi que "o dia que eu crescer vou querer ser como ele"!

 

Fui cativado desde cedo pela sua maneira de olhar e fazer educação. Tento, tanto quanto possível, seguir seus passos e implantar, pouco a pouco, a sua práxis nas mentes daqueles que ajudo a formar e naqueles com quem desenvolvo trabalhos voluntários de orientação para um rumo diferenciado nos caminhos da educação. Deixo-lhes uma entrevista que recebi faz poucos instantes, pois ela nos ajuda a compreender cada vez melhor o seu ponto de vista e de atuação.

 

Boa leitura e melhor proveito:

Entrevista com Zé Pacheco

30/06/2009 - 09h57

"Trabalho há mais de 30 anos com escola que não tem aula, série e prova, e dá certo", diz educador português.

Idealizador da Escola da Ponte, em Portugal, instituição que, em 1976, iniciou um projeto no qual os estudantes aprendem sem salas de aula, divisão de turmas ou disciplinas, o educador português José Pacheco afirma que as escolas tradicionais são um desperdício para os estudantes e os professores.


"O que fiz por mais de 30 anos foi uma escola onde não há aula, onde não há série, horário, diretor. E é a melhor escola nas provas nacionais e nos vestibulares", diz. "Dar aula não serve para nada. É necessário um outro tipo de trabalho, que requer muito estudo, muito tempo e muita reflexão".

Aos 58 anos, o professor que classifica autores como Jean Piaget como "fósseis", fez uma peregrinação pelo país. No trabalho de prospecção de boas iniciativas em colégios brasileiros, Pacheco só não conheceu instituições do Acre e do Amapá e diz ter somado cerca de 300 voos no último ano.

Com a experiência das viagens, escreveu dois livros de crônicas: o "Pequeno Dicionário de Absurdos em Educação", da editora Artmed, e o "Pequeno Dicionário das Utopias da Educação", da editora Wak. Aponta ainda que a educação brasileira não precisa de mais recursos para melhorar: "O Brasil tem tudo o que precisa, tem todos os recursos e os desperdiça". Veja a entrevista:

UOL Educação - Em suas andanças pelo país, qual o absurdo que mais chamou sua atenção?

Pacheco - O maior absurdo é que a educação do Brasil não precisa de recursos para melhorar. O Brasil tem tudo o que precisa, tem todos os recursos e os desperdiça.

UOL Educação - Desperdiça como?

Pacheco - Pelo tipo de organização. A começar pelo próprio Ministério da Educação. Eu brinco, por vezes, dizendo que o melhor que se poderia fazer pela educação no Brasil era extinguir o Ministério da Educação. Era a primeira grande política educativa.

UOL Educação - Qual o problema do ministério?

Pacheco - Toda a burocracia do Ministério da Educação que se estende até a base, porque a burocracia também existe nas escolas, à imagem e semelhança do ministério. No próprio ministério, o contraste entre a utopia e o absurdo também existe. Conheço gente da máxima competência, gente honesta. O problema é que, com gente tão boa, as coisas não funcionam porque o modo burocrático vertical não funciona. É um desperdício tremendo.

UOL Educação - Como resolver?

Pacheco - Teria de haver uma diferente concepção de gestão pública, uma diferente concepção de educação e uma revisão de tudo o que é o trabalho.

UOL Educação - O que teria de mudar na concepção de educação?

Pacheco - O essencial seria que o Brasil compreendesse que não precisa ir ao estrangeiro procurar as suas soluções. Esse é outro absurdo. Quais são hoje os autores que influenciam as escolas? Vygotsky [Lev S. Vygotsky (1896-1934)], Piaget [Jean Piaget (1896-1980)]? Não vejo um brasileiro. Mas podem dizer: "E Paulo Freire?". Não vejo Paulo Freire em nenhuma sala de aula. Fala-se, mas não se faz.

Identifiquei, nos últimos anos, autores brasileiros da maior importância que o Brasil desconhece. Esse é outro absurdo. Quem é que ouviu falar de Eurípedes Barsanulfo (1880-1918)? De Tomás Novelino (1901-2000)? De Agostinho da Silva (1906-1994)? Ninguém fala deles. Como um país como este, que tem os maiores educadores que eu já conheci, não quer saber deles nem os conhece?

Há 102 anos, em 1907, o Brasil teve aquilo que eu considero o projeto educacional mais avançado do século 20. Se eu perguntar a cem educadores brasileiros, 99 não conhecem. Era em Sacramento, Minas Gerais, mas agora já não existe. O autor foi Eurípedes Barsanulfo, que morreu em 1918 com a gripe espanhola. Este foi, para mim, o projeto mais arrojado do século 20, no mundo.

UOL Educação - O que tinha de tão arrojado?

Pacheco - Primeiro, na época, era proibida a educação de moços e moças juntos. Só durante o governo Getúlio Vargas é que se pôde juntar os dois gêneros nos colégios. Ele [Barsanulfo] fez isso. Ele tinha pesquisa na natureza, tinha astronomia no currículo oficial. Não tinha série nem turma nem aula nem prova. E os alunos desse liceu foram a elite de seu tempo. Tomás Novelino foi um deles e Roberto Crema, que hoje está aí com a educação holística global, foi aluno de Novelino.

UOL Educação - Por que o senhor fala desses autores?

Pacheco - Digo isso para que o brasileiro tenha amor próprio, compreenda aquilo que tem para que não importe do estrangeiro aquilo que não precisa. É um absurdo ter tudo aqui dentro e ir pegar lá fora.

UOL Educação - Qual foi a maior utopia que o senhor viu?

Pacheco - O Brasil é um país de utopias, como a de Antônio Conselheiro e a de Zumbi dos Palmares. Fui para a história, para não falar em educação. Na educação, temos Agostinho da Silva, que é um utópico coerente, cuja utopia é perfeitamente viável no Brasil. Ou seja, é possível ter uma educação que seja de todos e para todos. O Brasil, dentro de uns 30 ou 40 anos, será um país bem importante pela educação. São os absurdos que têm de desaparecer, para dar lugar à concretização das utopias. Acredito nisso, por isso estou aqui.

UOL Educação - Os professores são resistentes às mudanças?

Pacheco - Os professores são um problema e são a solução. Eu prefiro pensar naqueles professores que são a solução, conheço muitos que estão afirmando práticas diferentes.

UOL Educação - Práticas diferentes como a da Escola da Ponte?


Pacheco - Não são "como", mas inspiradas, com certeza. São práticas que fazem com que a escola seja para todos e proporcione sucesso para todos.

UOL Educação - Dentro da escola tradicional, onde ocorre o desperdício de recursos?

Pacheco - Se considerarmos o dinheiro que o Estado gasta por aluno, daria para ter uma escola de elite. Onde o dinheiro se desperdiça? Por que em uma escola qualquer, que tem turmas de 40 alunos, a relação entre o número de professores e de alunos é de um para nove? Por que os laudos e os atestados médicos são tantos? Porque a situação que se criou nas escolas é a do descaso. Esse é um absurdo.

UOL Educação - Onde mais ocorre o desperdício nas escolas?

Pacheco - O desperdício de tempo também é enorme em uma aula. Pelo tipo de trabalho que se faz, quando se dá aula, uma parte dos alunos não tem condições de perceber o que está acontecendo, porque não têm os chamados pré-requisitos, e se desliga. Há um outro conjunto de crianças que sabem mais do que o professor está explicando - e também se desliga. Há os que acompanham, mas nem todos entendem o que o professor fala. Em uma aula de 50 minutos, o professor desperdiça cerca de 20 horas. Se multiplicarmos o número de alunos que não aproveitam a aula pelo tempo, vai dar isso.

O desperdício maior tem a ver com o funcionamento das escolas. Os professores são pessoas sábias, honestas, inteligentes e que podem fazer de outro modo: não dando aula, porque dar aula não serve para nada. É necessário um outro tipo de trabalho, que requer muito estudo, muito tempo e muita reflexão.

UOL Educação - As famílias não estão acostumadas com escolas que não têm classe, professor ou disciplinas. Querem o conteúdo para o vestibular. Como se rompe com esse tipo de mentalidade?

Pacheco - Pode-se romper mostrando que é possível. Eu falo do que faço, e não de teorias. O que fiz por mais de 30 anos foi uma escola onde não há aula, onde não há série, horário, diretor. E é a melhor escola nas provas nacionais e nos vestibulares. Justamente por não ter aulas e nada disso.

UOL Educação - Por que uma escola que não tem provas forma alunos capazes de ter boas notas em provas e concursos?

Pacheco - Exatamente por ser uma escola, enquanto as que dão aulas não são. As pessoas têm de perceber que não é impossível. E mais, que é mais fácil. Posso afirmar, porque já fiz as duas coisas: estive em escolas tradicionais, com aulas, provas, com tudo igualzinho a qualquer escola; e estive também 32 anos em outra escola que não tem nada disso. É mais fácil, os resultados são melhores.

UOL Educação - Na concepção do senhor, o que é uma boa escola?

Pacheco - É a aquela que dá a todos as condições de acesso, e a cada um, condições de sucesso. Sucesso não é só chegar ao conhecimento, é a felicidade. É uma escola onde não haja nenhuma criança que não aprenda. E isso é possível, porque eu sei que é. Na prática.

UOL Educação - O professor que está em uma escola tradicional tem espaço para fazer um trabalho diferente? O senhor vê espaço para isso?

Pacheco - Não só vejo, como participo disso. No Brasil, participei de vários projetos onde os professores conseguiram escapar à lógica da reprodução do sistema que lhe é imposto. Só que isso requer várias condições: primeiro, não pode ser feito em termos individuais; segundo, a pessoa tem de respeitar que os outros também têm razão. Se, dentro da escola, os processos começam a mudar e os resultados aparecem, os outros professores se aproximam. Não tem de haver divisionismo.

UOL Educação - O senhor acha que a mudança na estrutura da escola poderia partir do poder público ou depende da base?

Pacheco - Acredito que possa partir do poder público, mas duvido que aconteça. As secretarias têm projetos importantes, mas são de quatro anos. Uma mudança em educação precisa de dezenas de anos. Precisa de continuidade. E isso é difícil de assegurar em uma gestão. Precisa partir de cada unidade escolar e do poder público juntos.